Em duas semanas deixo Toronto para voltar ao Brasil. Embora ainda tenha muita coisa pra acontecer e alguns passeios previstos, já é possível começar a responder algumas questões sobre a experiência do intercâmbio. Assim, não só satisfazemos a curiosidade da família e dos amigos sobre algumas questões-chave em viagens como essa, mas também, e principalmente, clareamos alguns pontos para quem pretende viajar.
1-Toronto é uma boa cidade para se fazer intercâmbio? Depende. Se você tem um nível de inglês básico ou não sabe nada da língua, não é um bom lugar. Por que? Porque Toronto tem um índice de imigração altíssimo. Você encontra aqui pessoas de todas as partes do mundo. Consequentemente, a gente ouve, o tempo todo, um inglês com muito sotaque e, não raramente, errado gramaticalmente, o que não é uma boa para quem está aprendendo. Por que isso acontece? A maior parte das pessoas que imigrou aprendeu a língua no uso, fora da escola. E existe um complicador: aqui, na escola fundamental, o ensino de gramática foi abolido. Ou seja, os próprios canadenses têm dificuldade com o uso padrão da língua. Uma pesquisa feita em uma universidade de Toronto mostrou que 40% dos estudantes de ensino superior não sabiam como lidar com construções gramaticais básicas, quando questionados sobre elas. Ou seja, as pessoas simplesmente falam a língua sem se preocuparem se está correto ou não.
E se meu nível de inglês é intermediário ou avançado? Aí sim pode ser interessante, porque você será muito estimulado a melhorar as habilidades de audição. Na minha primeira semana aqui, parecia que as pessoas falavam grego e não inglês. Mas, com o tempo, a gente vai aprendendo a ouvir, o que é muito importante.
2-Escolher morar com host families é a garantia de vivenciar o modo de vida canadense? Definitivamente, não. A maior parte das famílias que recebe estudantes NÃO é canadense. E Toronto tem a particularidade de permitir que os imigrantes mantenham seus antigos hábitos trazidos do país de origem. A cidade é toda dividida em áreas, como a chinesa, a italiana, a grega etc.
3-Existe um padrão para a escolha das famílias? Por incrível que pareça, NÃO. É uma questão de sorte. Existem casas que fornecem toda a infraestrutura de estudo e bem-estar e são mais flexíveis com relação a horários, banho e refeições, por exemplo. Mas há casas, e não são poucas, onde não existe qualquer tipo de abertura ou preocupação com a qualidade do que é oferecido ao estudante. Onde eu vivo, por exemplo, tenho TV, internet, quarto aquecido, mesa de estudos, banheiro individual. Mas não foi assim com a maioria das pessoas que conheci aqui. Isso quer dizer que não existe nenhum controle? Não, porque na escola preenchemos dois formulários de avaliação das famílias: um quando entramos e um quando saímos. Mas realmente não dá pra entender o que é feito com essa ficha. Fato é que, embora todos paguem o mesmo preço, nem todos podem contar com a mesma infraestrutura, o que, obviamente, não é justo.
4-E a família? Por que ela recebe estudantes? Esse é o ponto de maior decepção da maioria das pessoas com as quais eu conversei. Geralmente os estudantes vêm animados com uma possível troca cultural, esperando passeios na companhia da família etc. Era o meu caso. Mas isso é a exceção e não a regra. Vi isso acontecer? Vi. Com duas pessoas, que foram para famílias canadenses (geralmente mais abertas a esse envolvimento). Mas, geralmente, esse tipo de interação não ocorre. A família recebe estudantes como uma forma de complementar sua renda. Tem a sua própria rotina e não se envolve com a nossa. O que a gente tem que entender, é que se trata de uma outra cultura, bem diferente da do Brasil. Quase sempre, a família não faz por mal ou indiferença, mas simplesmente porque faz parte de uma outra realidade, mais fechada.
5-E as refeições? Vale a pena pagar o pacote completo de três refeições por dia? Esse é um ponto muito complicado, porque cada família lida com a alimentação de maneira diferente. O que é preciso saber é que o almoço aqui não é a refeição principal, como no Brasil. Então, é muito comum que a gente receba pão com ovo, por exemplo, como almoço (aliás, ovo é palavra proibida pra mim durante um ano depois que eu voltar pro Brasil!). É interessante trazer um dinheiro à parte, já pensando em almoçar, porque realmente faz muita falta. Quanto? Uma média de 10 dólares por dia.
6-Toronto é uma cidade barata? Não. Uma das mais caras do Canadá. As taxas aqui são altíssimas. A título de comparação, uma souvenir que custa 2 dólares em NYC, por exemplo, custa pelo menos o dobro aqui, mais as taxas.
7- E Vancouver? É uma boa? Se você vai viajar em Dezembro ou Janeiro, não. Chove praticamente todos os dias, o que atrapalha muito se você pretende explorar a cidade.
8-Vale a pena fazer o curso intensivo de inglês (30 horas semanais)? Quando a gente está no Brasil tudo o que pensamos é em aproveitar ao máximo o tempo do intercâmbio pra aprender e melhorar a língua. Mas saiba que o processo de aquisição de um outro idioma não é simples para o nosso cérebro. No início, a gente fica muito cansado, tem muito sono e dor de cabeça. Então, 6 horas de aula por dia é uma carga bastante pesada. Ao escolher o programa, vale a pena combinar aulas mais cansativas, como a de gramática, com aulas mais leves, como as de comunicação ou cinema.
9- E a escola? A ILSC é excelente. Mas 60% dos alunos são brasileiros. Outros 20% são orientais e os 20% restantes são vindos de outros países. Esses números são oficiais, ok? Isso é ruim? Depende. Dentro da escola é expressamente proibido falar português e isso pode render suspensão. Fora dela, não vou mentir, a gente acaba falando. Mas, ao mesmo tempo, quando combinamos de só falar inglês, não existe pronúncia melhor que a do brasileiro. A dos orientais é medonha!!!! Então, preferi ficar na companhia dos brasileiros e ouvir um inglês limpo e correto, sem mutações genéticas! hehehehee.
Por hoje é só. Se você já foi intercambista ou vai ser, comente, discorde, concorde, dê sua sugestão. No próximo post, uma relação dos lugares imperdíveis de Toronto!