segunda-feira, 31 de maio de 2010

SERÁ MESMO QUE ESCOLHEMOS ONDE QUEREMOS ESTAR NA INTERNET?

Quase 500 milhões de usuários ativos e uma polêmica: a política de privacidade do Facebook é falha? Hoje, saída de Toronto, no Canadá, entrou no ar a campanha "Quit Facebook", em protesto ao modo com que o site lida com as informações pessoais dos usuários. Com a aderência de pouco mais de 32 mil pessoas, o movimento parece não ter tido a repercussão esperada, pelo menos por enquanto. Sob os rumores da insatisfação pelo fato de informações de caráter pessoal estarem sendo compartilhadas na internet, o CEO do Facebook, Mark Zuckerber, anunciou a revisão das ferramentas de privacidade.
Em um vídeo publicado pela Euronews (que você pode ver aqui), Joesph Dee, um dos fundadores do movimento, fala do direito de escolha das pessoas de onde querem ou não estar na internet. OK. Temos esse direito. Mas, será ele uma possibilidade real? Será mesmo que, no Facebook ou não, temos podido exercer essa nossa liberdade de escolha? O que é preencher um cadastro na internet? O que são as informações disponíveis na nuvem? E quanto você abre seu gmail e existem inúmeras publicidades no lado direito do seu monitor que te parecem demasiadamente oportunas e perfeitamente casadas com as suas necessidades do momento? Isso não seria também uma mega invasão de privacidade?

Para alguns autores de gestão e marketing, como Seth Godin, a internet deveria ser usada em um caminho inverso, como um espaço para se fazer marketing direto, desenvolvido a partir de base de dados opt-in. No entanto, o que temos visto e vivido?
Não acredito, particularmente, em bases opt-in construídas a partir de afirmações escritas em letras microscópicas, perdidas em meio aos contratos de utilização do que está na internet. Opt-in implica, portanto, o direito de fazer uma escolha a partir de informações que te dêem alguma condição de optar. Transparência e clareza são, a meu ver, a melhor estratégia. É mais inteligente por dois motivos: 1- o consumidor não fica puto; 2- é possível trazer as pessoas que estão realmente interessadas em ouvir o que você tem a dizer.

Claro que em um caso como o Facebook estamos falando de uma escala muito maior, da ordem de centenas de milhões de pessoas. Tudo bem. Ainda assim, acho que vale ser claro e direto.
E, se esse protesto vai vingar, eu não sei... Só acho que a discussão sobre a privacidade na internet tem mesmo que entrar em pauta e que o buraco é um pouco mais fundo do que possa sugerir o "Quit Facebook Day".

A seguir, vídeo em que se discute a política de privacidade do Face:





terça-feira, 27 de abril de 2010

INTERMINAS 2010

No último sábado, aconteceu, em Belo Horizonte, o Interminas 2010, um evento dedicado a discutir a Internet e seus desdobramentos nos planos de comunicação das empresas, nos modelos de negócio, na vida das marcas. Pra quem não pôde comparecer, faço uma pequena compilação dos pontos altos do evento e dos cases mais bacanas que rolaram na ocasião.

"Seja um jardineiro"

Essa frase foi dita durante a palestra de @kenfujioca e, pra mim, poderia ser a frase-chave, se tivesse que escolher uma para sintetizar o evento. Por que? Porque internet sem monitoramento e gerenciamento é, praticamente, um suicídio. O trabalho de relacionamento, de cultivo (para usar a metáfora dos jardins), de cuidado da informação é, portanto, crucial e, como o próprio Ken disse, muitas vezes mais importante que a publicidade em si.

Também sobre monitoramento e, principalmente, sobre diagnóstico, falou @interney, que insistiu em uma importante questão: não atire para todos os lados! Eu sempre digo, nas palestras e cursos que dou, que a internet não é lugar de falar com todo mundo, mas com as pessoas certas. Não faz o menor sentido montar um plano de mídia que inclua todas as redes sociais se

1- Você não for capaz de abastecer todas elas de conteúdo, periodicamente!
2- Seu público-alvo não estiver lá. Afinal, pra que perder tempo com um cara que não te interessa? Para descobrir se ele está ou não, vale um diagnóstico prévio.

Uma outra questão importante sobre a qual Interney falou, diz respeito às métricas. Não podemos esquecer que os clientes têm objetivos comerciais com a internet e que, portanto, precisam ver resultado. Para Interney a mensuração pode ser feita de três maneiras (de preferência, as três de modo combinado):

1-visibilidade: page views e tempo de permanência no site, por exemplo.
2-Influência ou referrais: número de retwittes, links apontando para a página etc.
3-Engajamento: número de comentários não só no endereço fonte, mas nas rede em geral.

Sobre campanhas políticas

Esse ano a internet promete ser uma das protagonistas da campanha eleitoral. Depois do case Obama e da mudança da legislação brasileira, o assunto não passou batido no Interminas. O mata-mata presidencial começa oficialmente no dia 5 de julho e, resumidamente, eis uma listinha do que pode e do que não pode ser feito:

SIM
-Para blogs, redes sociais, site próprio. Caiu a exigência pelo .cam (de campanha) existente nos anos anteriores.
-Para o e-mail MKT, desde de que a base de dados seja opt-in, ou seja, baseada em permissão e não em invasão.
-Para a arrecadação via internet.

NÃO
-Para posts pagos e outras formas pagas. O descumprimento pode implicar multa de até 30 mil.
-Para spam SMS.
-Para banners

Quanto ao direito de resposta (algo mega importante, tendo em vista a delicadeza com a qual os candidatos geralmente se tratam) deve ser exercido no ambiente fonte da ofensa. Ou seja, se a discórdia foi gerada em um blog, por exemplo, a resposta deve ser dada no próprio blog.

Já o prazo para a retirada de conteúdos da rede não possui regra prévia. Cada caso será julgado pela Justiça Eleitoral.

Vídeos

Rolou um momento "revive" com esse vídeo da Apple, que eu adoooorrroooo!



E também esse, depois de uma discussão sobre quebra de paradigmas:



E esse, que é sensacional!:



Mas meu case preferido entre os que foram apresentados foi o da campanha Banners Concert, em que bandas foram convidadas a gravar dentro de espaços correspondentes aos formatos de banners web. Pasmem: o cliente é um banco, o Axion, da Bélgica. Incrível a ousadia, ?



E, pra terminar, uma frase de @renedepaula, tão boa quanto aquela que eu usei pra começar esse post, e que também foi dita no @interminas: "O importante é entender as pessoas e não as tecnologias." Eureka! As tecnologias em si mesmas entrarão e sairão de cena. A cada dia uma ferramenta nova, a cada estação um aparelho novo, uma versão turbinada de alguma coisa. Mas as mudanças significativas e que interferem no nosso trabalho, enquanto profissionais de comunicação, não estão no âmbito do mega pixel, dos botões, das ferramentas enquanto tais. Fazemos comunicação para pessoas, ou melhor, COM pessoas. O "COM", essa palavrinha corriqueira, simples, de apenas três letras, mas tantas vezes esquecida, é etimológica, está na raiz do nosso trabalho, não pode ser deixada pra trás. Que tal, então, pensar nas relações que os meios digitais propiciam e na forma com que elas interferem na vida das pessoas que os utilizam? O que as pessoas pensam? O que elas desejam? O que elas pensam que desejam?... Nesse rumo, o caminho é menos tortuoso...

quinta-feira, 22 de abril de 2010

BRASIL 2020

"Há certo consenso a respeito da proteção ambiental. Todos são a favor, mas, boa parte, só se for no "meio ambiente" alheio. Quer-se o bem da floresta amazônica, já as obrigações ambientais da empresa... Salvem-se as tartarugas e baleias, já reduzir o próprio lixo... Combata-se a poluição, mas não o uso intensivo do carro particular. As unanimidades em prol da paz, do meio ambiente, do combate à pobreza, às vezes esquecem que é preciso construir na prática a solução para aquilo que incomoda a consciência." (Trecho do texto "Dia da Terra, uma questão de atitude", de Marina Silva. Leia na íntegra aqui).

Hoje, 22 de abril, é dia da Terra. Vi muitas menções ao tema na internet e acabei chegando a esse texto da Marina, com o qual começei este post por pensar que ele sintetiza bem o sentimento que tenho em relação aos temas ambientais.
As discussões sobre o clima parecem com as que temos sobre AIDS. Todo mundo está cansado de saber que tem que usar camisinha, mas a galera não usa. Do mesmo jeito, todo mundo está cansado de saber que a maior parte dos recursos naturais de que fazemos uso não são renováveis. Ou seja, um dia vai acabar. E, mesmo assim, os rios estão lotados de lixo, as pessoas jogam papel da janela de carros e de ônibus da maneira mais descarada possível, e as políticas de reciclagem de lixo são quase inexistentes. Por incrível que pareça, no nosso país as pessoas conseguem revestir de burocracia o que deveria ser feito de maneira banal, fácil, instintiva. A gente quer reciclar o lixo, mas não sabe o que fazer com ele porque a Prefeitura não tem coleta seletiva ou, se tem, ela não abrange metade da cidade. Vivo esse drama não é de hoje!
Mas, mesmo assim, me recuso a desistir. Brinco que certas atitudes ambientalmente corretas, e longe de serem ecochatas, viciam. Reciclar é uma delas. Quando visualizamos o volume de lixo que produzimos e, consequentemente, quanto tomamos consciência sobre o quanto uma única pessoa é capaz de sobrecarregar o meio ambiente com materiais que demorarão centenas de anos para serem decompostos, não temos coragem de desprezar o lixo sem separá-lo. Ou, pelo menos, perdemos o automatismo que nos faz agir sem pensar. E é exatamente esse o ponto. Odeio sermão, mas já está mais que na hora de sairmos do automático.
Não adianta ficar reclamando depois que as tragédias acontecem, gente?!. Atualmente, acho que podemos classificar esses desastres de duas maneiras: 1-estamos pagando pelo que estamos fazendo (e não faltam má notas pra contar); 2- estamos pagando pelo que nós não estamos fazendo (sim! Em se tratando de meio ambiente, omissão conta. E muito.) Não podemos participar de Copenhague, mas podemos, facilmente, mudar o que está perto de nós. Conheçam aqui 50 dicas para ajudar o planeta.
É com base nesse raciocínio que está entrando em cena uma campanha muito bacana, a Brasil 2020. A ideia é antecipar as metas de redução das emissões de carbono para 2020 (e não 2050, como tem sido discutido), além de consolidar uma economia climática global até essa data. E o mais legal disso é que a população civil está incluída! Para conhecer mais sobre o projeto, acesse o site oficial e o Twitter. Essa é uma causa que vale a pena!

segunda-feira, 5 de abril de 2010

ELEIÇÕES 2010. COM INTERNET.

Há poucos dias assisti a uma palestra intitulada "Mobilização Política e Redes Sociais". Em ano eleitoral, confesso que saí de casa achando que as campanhas políticas que estão por vir seriam o centro da discussão. Afinal, nas eleições 2010 as mídias digitais poderão ser usadas pela primeira vez, apesar de uma listinha (nem tão básica) de restrições. Levei um balde de água fria não só porque a abordagem dos palestrantes não foi a esperada, mas também porque tive a impressão de que, mais uma vez, estavam querendo reinventar a roda. Passamos por exemplos clássicos de mobilização social através das redes, como a campanha do Obama, e por algumas reflexões que culminaram na já conhecida importância de se discutir a internet e o poder de agendamento das comunidades virtuais.

No mês de Março deste ano, nos EUA, o Facebook superou o número de acessos do Google. Acaso? Ocorrência que pode passar em branco? Penso que não. É mais um indicativo consistente de que, cada vez mais, a relevância da informação e o consumo por indicação são determinantes: reputação é a palavra-chave quando pessoas estão em busca das opiniões, críticas, impressões de outras pessoas. Como já discutimos em alguns posts aqui, esse é um entendimento extremamente significativo na vida das marcas e das empresas e, com certeza, fundamental também quando o assunto é política.

Ainda há muito o que se testar e se descobrir. Nas eleições desse ano, embora já existam muitas experiências anteriores (em outras situações e países) que apontem caminhos, teremos a chance de aprimorar nossos fazeres e, quem sabe, suprir alguns furos ou carências dos processos eleitorais anteriores. Transparência é a palavra em que aposto: o eleitorado está carente dela e a internet é um mar de possibilidades para que essa qualidade seja explorada, seja como característica do candidato, seja pelo perfil das ações que podem ser propostas e desenvolvidas.

Nunca faz mal lembrar, no entanto, que estamos fazendo comunicação, ou seja, participando de um processo vivo, em que não existem fórmulas mágicas que resolvam problemas. E, claro, não se trata de chute e muito menos de obrigação. Entrar na rede, principalmente durante uma campanha, é estar ciente de seu funcionamento. Uma ferramenta isolada, usada sem consistência e sem monitoramento, não resolve a vida de ninguém. Ao contrário, pode causar sérios problemas. Então, se você é candidato, não ache que basta criar um blog ou um Twitter e tudo estará resolvido. GERENCIAR É A PALAVRA DE OURO!

Para ajudar nessa complexa tarefa de mapear e gerar feedback em um curto espaço de tempo aos usuários, olhem isso. Trata-se do Observatório da Web, uma plataforma cuja proposta é acompanhar a evolução e a disseminação da informação na internet a partir de seus eixos temáticos. As eleições 2010 e a Copa do Mundo serão o objeto de teste desse projeto coordenado pela UFMG.

quinta-feira, 11 de março de 2010

P.P. DO BEM

Esse vídeo me fez lembrar a comum e antiga (!) discussão em torno da ética na publicidade. Costumeiramente nós, publicitários, somos alvo de ataques e acusações sobre os malefícios das campanhas que produzimos. A nós, já foram dedicados os títulos de "mentirosos", "enganadores", "financiadores do capitalismo".

Não vou dizer que essa questão nunca foi motivo de conflito pra mim. Foi e, em algumas situações, ainda é. Mas também me é muito claro o fundamental papel desempenhado pelos profissionais de comunicação na vida das empresas e dos cidadãos em geral. A publicidade está intimamente ligada à circulação da informação, elemento, esse, fundamental para que seja mantido o nosso sagrado direito de escolha. Sim, ela nos influencia, estimula a criação de demandas, reveste o consumo de simbolismo. Mas também estamos cansados de saber que os modelos "hipodérmicos", que reservam ao consumidor o simples lugar de "esponja" do que a mídia veicula, estão muito longe de explicar a complexidade dos processos comunicativos.

A cada vez que a "ética" entra na roda pra ser discutida, ao invés de nos envergonharmos ou temermos, acredito que podemos agradecer e aproveitar duas chances: 1- a do exercício democrático; 2-a de ultrapassarmos debates que ficam no campo do que é ou não moral (e que são muito complicados, porque a moral tem a ver com questões culturais), para ampliarmos os parâmetros e conversarmos sobre o respeito ao "ser humano". E, até quando se pratica o "moralismo" ao invés da proteção da ética, como nos casos em que filmes saem do ar por colocarem em cena alguns tabus ainda difíceis de serem socialmente assumidos; acho que está valendo! Por que? Porque é mais uma prova de que o direito de discordância e de escolha ainda se mantém... E de que a publicidade não é tão impositiva assim...

Como toda profissão, ela pode ser praticada de várias maneiras, com ou sem responsabilidade, com maior ou menor cuidado, com mais ou menos observância da legislação... Não é preciso ser publicitário para ser o vilão da história, ?

O filme deste post é um exemplo do lado educativo e socialmente responsável da publicidade... E, mais, de como ela pode tratar de assuntos difíceis com delicadeza e beleza, facilitando que eles sensibilizem as pessoas e produzam algum tipo de resultado positivo.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

DE MALAS PRONTAS

O que há do outro lado? É possível atravessar?...
Embora de formas diferentes, essas perguntas habitavam a mente de grande parte dos que viviam naquele pequeno povoado chamado “Nosso lugar”, localizado na fronteira do “País de origem”. Pode ser que algumas pessoas tenham deixado as perguntas guardadas - por preferência ou desconhecimento - em gavetas nunca abertas. Ou, ainda, que elas tenham sido adormecidas por circunstâncias diversas, até que fosse possível retomá-las e despertá-las. Mas, ainda assim, o importante é que, em algum momento, essas duas questões nasceram e deixaram suas marcas na vida de cada um daquele povoado.
Um pequeno grupo de jovens amigos, no entanto, preferia cultivar essas perguntas a cada encontro, sempre nas melhores hortas da imaginação de cada um. Respeito, Coragem, Medo, Acerto, Erro e Gentileza se conheceram na escola, ainda na infância. Eram um sexteto inseparável. As famílias sempre foram amigas e, essa proximidade, fez com que os laços de afeição surgissem entre os filhos de maneira espontânea e genuína.
Certo dia, o sonho compartilhado pelos seis, e alimentado por aquelas duas perguntas de que já falamos, se tornou irresistível. O ponta-pé de que os amigos precisavam foi dado em uma tarde de domingo, em que eles andavam pela região que separava “ País de Origem” de “Próxima Nação”. Uma ponte longa e fina, feita de madeira e corda, dividia e unia os dois lugares. Embaixo dela, um grande vale.
Não havia qualquer barreira impedindo a passagem e a travessia. Só uma pequena e velha placa onde se lia em tinta gasta “Cuidado. Perigo.” Apesar da falta de impedimento, ninguém se arriscava. A área estava sempre deserta e talvez isso conferisse a ela ares melancólicos ou mais ameaçadores do que de fato possuía. Era estranho pensar na falta de uso da ponte. Afinal, se ela havia sido construída, alguém já tinha compartilhado daquele mesmo sonho de atravessar. Alguém já tinha feito aquilo antes. A ponte não estava ali por acaso.
Talvez tenha sido esse o raciocínio que fez os seis amigos decidirem pela tentativa de chegar ao outro lado. Precisaram de algum tempo pra se preparar: essa etapa durou três meses e foi feita em silêncio. No dia da partida, cada família recebeu apenas um pequeno, mas completo bilhete: “Fui buscar o meu sonho. Amo vocês!”
Na hora marcada lá estavam eles, os seis, diante da pequena entrada da ponte. Eles sabiam que não seria simples atravessar. Temiam que a velha estrutura de madeira não aguentasse. Traziam mochilas pesadas, com corda, roupas, comida. Não sabiam ao certo do que precisariam e nem quanto tempo levariam para cruzar aquele longo caminho e explorar a “Próxima Nação”.
- Como faremos? Quem vai primeiro? – perguntou Gentileza.
- Eu vou! - Respondeu Coragem. - Não é tão difícil assim…
- Tem certeza? Da última vez que você disse isso voltou pra casa com o braço quebrado! – A memória de Erro chegava a ser desagradável, de tão pontual e infalível. Às vezes irritava a insistência que ele tinha em lembrar.
- Tenho. – Retrucou Coragem, sem se abater pelas lembranças do amigo.
E assim foi ela, uma adolescente jovem e corpulenta, vistosa, com os cabelos lisos e claros que escorriam pelas costas até a cintura. Era dona de uma pele morena-avermelhada e de um sorriso largo e alinhado.
Coragem segurou as cordas que formavam uma espécie de corrimão ao longo da estreita ponte e, ágil e ávida por se aventurar, como era, se pôs a caminhar. Rápido demais. As cordas entrelaçadas na madeira fixavam o material, mas não deixavam a estrutura rígida o suficiente.
Era preciso força e cautela para manter o equilíbrio. Coragem se desequilibrou e por pouco não caiu. Voltou ao encontro dos amigos na entrada na ponte, sob as já esperadas gozações de Erro:
- Eu sabia que não ia dar certo!
- Por que não vai você então? Vá na frente e nos mostre como é! – Desafiou Coragem, enquanto Erro ria, sentado no chão.
- Medo?! Você acha que pode tentar agora? – perguntou Gentileza
- Não vou conseguir – respondeu Medo em completo pânico.
- Eu quero tentar de novo! – Disse Coragem. – Mas preciso de alguns minutos pra me recuperar do susto. Medo, não caminhe tão rápido como eu fiz. Vá! Você consegue!
Medo se dirigiu à entrada da ponte. Era visível o esforço que ele estava fazendo para estar ali. Mas era um sonho. Ele precisava tentar.
Medo era um menino tímido e cabisbaixo. Falava pouco, nunca se metia em discussões ou disputas na escola. Alguns o tratavam como uma pessoa covarde. Não era. Ele apenas ainda não tinha descoberto do que era capaz.
Medo se posicionou na frente da ponte, agarrando firme as cordas dos dois lados. Também tinha uma corda amarrada na cintura e em poder dos amigos Gentileza e Respeito, para caso ele precisasse. Mas Medo não saiu do lugar, simplesmente porque não conseguia olhar pra frente.
- Medo, você sabe que pode atravessar. Basta olhar pra frente e ir devagar, no seu tempo. – Incentivou Acerto.
- Não, eu não posso. Não sou bom nessas coisas. Vocês sabem… Desculpem, mas eu não posso. Vocês podem prosseguir sem mim.
E ele voltou. Momentaneamente derrotado pela força enorme de uma palavra tão pequena: “não”.
- Quem vai tentar agora? – Perguntou Gentileza.
Foi então que Respeito, que até então ouvia e observava tudo em silêncio, resolveu se manifestar. Ele era um homem simples, pacífico, cativante. Sempre com um sorriso no rosto, era impossível não gostar dele.
- Acho que precisamos rever a nossa estratégia!
- Acha que devemos desistir? - Indagou Acerto completamente desapontado. Ele ainda não tinha tido a própria tentativa. Queria fazê-lo! Queria atravessar!
- Não estou falando em desistir, mas acho que, desse jeito, estamos perdendo o nosso propósito.
- Você pode explicar um pouco melhor? – pediu Gentileza
- A ideia não era fazermos isso juntos? Esse não é um sonho de um, mas de seis. De que adianta chegarmos ao outro lado se alguém de nós ficar pra trás?
Os seis amigos se entreolharam e isso bastou para reconhecerem que alguma peça estava fora do lugar. E eles sabiam o que era:
- E se atravessarmos todos ao mesmo tempo? – Eles disseram quase que em uníssono, com os olhos se iluminando, como quem faz uma descoberta.
- Isso! – Exclamou Respeito afirmativamente. - Alguém tem alguma sugestão sobre como fazer?
- Pelas nossas experiências anteriores, sugiro que o Respeito vá na frente, abrindo caminho. – Sugeriu Acerto. – Todos concordam?
- Eu posso vir em seguida, de mãos dadas com o medo. – Disse Coragem.
- Eu concordo – Respondeu Medo.
- Erro?! – Chamou o Acerto. – Você acha que consegue me carregar nas costas? Assim podemos garantir uma visão geral do grupo e antecipar possíveis problemas.
- Perfeitamente. – Respondeu Erro.
- E, se vocês não se importarem, posso me revezar ocupando lugares variados entre vocês. Acerto, procure me abastecer de informações porque, assim, caso alguém precise de ajuda, eu estarei pronta a colaborar. – Pediu Gentileza.
E assim foram os seis. Respeito, Coragem, Medo, Erro, Acerto e Gentileza. Nos ombros do Erro, o Acerto ganhara um brilho novo. Ao contrário do Erro - uma figura forte e marcante - o Acerto era delicado e simples. Gostava de se planejar, era metódico, alegre. Andava sempre com o Erro, seu melhor amigo e, juntos, podiam exercitar a melhor versão de cada um. Gentileza era uma mulher rara: doce, amigável, esperançosa. Vendo assim, de longe, ninguém dava muito crédito a ela: magrinha e esguia, os amigos sempre brincavam que ela cabia em qualquer lugar. E acho que cabia mesmo!
Não podemos dizer que a travessia foi fácil. Não foi. Mas, juntos, eles conseguiram. E, só isso, já era muito. Também juntos eles puderam aprender a ler o “País de Origem” com novos olhos e descobrir que a “Próxima Nação” podia ser linda ou não: isso dependia mais deles próprios do que de qualquer outra pessoa. Lindo, mesmo, era o prazer de descobrir! E ele fez tudo valer a pena!
Criei essa pequena história, como uma metáfora para a minha viagem que, gentilmente, vocês se dispuseram a acompanhar. Com quantas pontes nos confrontamos ao longo da vida? São tantas, ? Às vezes as encaramos de forma tão complicada, quando tudo o que temos que fazer é atravessá-las, olhando pra frente e sempre buscando uma parceria entre o respeito, a coragem, o medo, o acerto, o erro e a gentileza. Talvez os seis não possam mesmo viver sozinhos. Coragem sem medo é inconsequência. Acerto sem erro é, provavelmente, estar sempre estagnado, repetindo as mesma coisas, sem poder ir pra frente e experimentar o delicioso sabor do que é novo. Viver e, principalmente, conviver, e não respeitar, é não ser capaz de se sensibilizar, de se emocionar, de se rever, de compartilhar. E a gentileza?... Tão simples, tão modesta, mas tão clara, tão generosa, tão maravilhosa…
Há dois meses, escrevi um post com o mesmo título que dei pra este: “De Malas Prontas”. Só que, agora, tenho uma bagagem mais pesada, não só de "bugigangas" (hehehehe), mas de tudo o que eu vi, senti, toquei, ouvi, aprendi. Por tudo isso, sou uma pessoa diferente também, modificada pela primeira tentativa bem sucedida de descobrir o que está do outro lado, além da velha ponte de madeira. Ponte que eu ainda quero atravessar muitas vezes.
A cada um dos que acompanharam essa minha pequena aventura, obrigada pelo carinho, interesse e disponibilidade. Que tal um comentário pra que eu possa guardar de lembrança?
Aos que estão no blog pela primeira vez, sejam bem vindos e voltem sempre!
Agora, meus amigos, tenho o prazer de dizer que estou voltando pra CASA!!!
Saudades, Brasil!!!

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010